Família, altruísmo e evolução

Família, altruísmo e evolução

Porque apresentamos valores como altruísmo e bondade? Porque é que nos sentimos “em família” junto da nossa família?
Para te ajudar a perceber estas questões, vamos recorrer à ciência e mostrar um mecanismo explicativo evolucionista para o nascimento desses valores entre nós.

O que esperar deste artigo:

  • Compreender o que é a evolução
  • “The Selfish Gene” – O Gene Egoísta
  • Compreender a origem do altruísmo e da bondade
  • Altruísmo em família – porquê?
  • Altruísmo em sociedade – porquê?

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Primeiro precisamos de saber o que é a evolução.

Primeiro precisamos de saber o que é a evolução.

A evolução é um fenómeno que decorre ao longo do tempo. Geralmente muito, muito tempo (milhares e milhões de anos). A evolução decorre numa população de uma espécie – um conjunto de indivíduos semelhantes que interagem e procriam entre si.

Quando um ser vivo apresenta uma vantagem, que se demonstra como tal ao longo da sua vida, ele é positivamente selecionado face a outros. Tendo essa vantagem, quando as condições adversas se reunirem, ele estará melhor adaptado ao meio envolvente e terá mais hipóteses de sobreviver do que os que não têm essa característica. Logo: mais hipóteses do que os outros de procriar e produzir descendência.

Ao longo do tempo, o mesmo acontecerá para as seguintes gerações que apresentam essa vantagem nas mesmas condições. O resultado é que passará a haver mais indivíduos com essa característica, do que sem ela. Portanto, não se esqueçam: não é o individuo que evolui, mas sim a população onde está inserido. O raciocínio brilhante mas simples, foi enumerado por Darwin e Wallace no séc. XIX.

Nós vivemos em sociedade.

Nós vivemos em sociedade.

Nós, Humanos, como muitas espécies deste planeta, somos seres sociais. O nosso estado natural, ao contrário dos animais solitários como a preguiça, consiste em viver em sociedade. Fazemos parte integrante do grupo em que estamos inseridos, e interagimos ativamente com os restantes membros. Esta foi a estratégia adotada pelos nossos antepassados para atingir os objetivos de qualquer ser-vivo: sobreviver e prosperar.

E não há dúvida de que isto é uma boa estratégia, afinal nós, os nossos primos primatas, e familiares mais afastados como os leões, golfinhos, entre outros que vivem em grupo, sobrevivemos uns quantos milhões de anos, e estamos aqui agora para contar a história.

Mas isto já foi há algum tempo. Hoje, não está na nossa lista de preocupações do dia-a-dia fugir de predadores, e ter de caçar com sucesso com a hipótese de não haver comida no prato à hora da refeição. A nossa sobrevivência já não depende destes fatores. No entanto, de facto, foi uma vantagem, e, por o ser, manteve-se ao longo das gerações. E cá estamos nós, o grupo Humanidade, cheio de cidades repletas de pessoas com relações entre si.

Altruísmo - Uma vantagem evolutiva.

Altruísmo - Uma vantagem evolutiva.

Ok: entende-se porque é que viver em grupo pode ser uma vantagem, certo? Mas então, o que dizer acerca das atitudes altruístas? Todos nós podemos dizer que já ajudámos ou fizemos sacrifícios por alguém, sem esperar receber algo em troca, e, por vezes, ainda saímos prejudicados voluntariamente duma situação apenas em beneficio de outro.

Richar Dawkins, autor com uma das obras mais influentes dos últimos tempos, apresentou ao mundo uma ideia anteriormente formulada por outros cientistas: The Selfish Gene.

No livro, adota-se a perspetiva de que é de facto uma vantagem evolutiva um ser vivo ser bondoso para com os parentes mais próximos. E que portanto, o que existe é um “gene” egoísta, mascarando-se como bondoso por de trás das atitudes altruístas, apenas para ter mais hipóteses de se propagar.

A banana e tu, tu e a tua família.

A banana e tu, tu e a tua família.

Nunca ouviste que partilhas 50% do teu DNA com uma banana? Bem, isso não é bem verdade, mas tudo depende da rigidez de critérios e com o que estás realmente a comparar. No entanto, concordas que se há quem chegue a esse ponto com bananas, podemos dizer seguramente que somos muito mais parecidos com chimpanzés do que com bananas. Agora pensa no quão parecidos somos com os nossos parentes mais próximos.

É uma vantagem ser um bom familiar.

É uma vantagem ser um bom familiar.

Mas porque é que existe o conceito de família? E porque é que é uma vantagem evolutiva ser bondoso e altruísta? Quando muito reduzido, o conceito de família existe porque se os pais não cuidarem dos filhos, não terão descendência. Se a família não cuidar de si, como quando irmãos cuidam uns dos outros, a descendência também estará em risco. E qual é o principal objetivo dos seres vivos? Sobreviver e deixar descendência, procriar.

Assim uma família com o “gene” que codifique para a característica de cuidarem bem uns dos outros, poderá viver mais tempo, assegurando uma maior sobrevivência. E como vimos anteriormente, isso resultará em mais descendência. É uma vantagem evolutiva ter uma família! E ser um bom familiar! Porque, se não cuidares, não estimares, não “tomares conta”, a tua descendência corre risco.

Ser egoísta ou não ser, eis a questão!

Ser egoísta ou não ser, eis a questão!

No entanto, encontramos aqui um paradoxo: do ponto de vista evolucionista, genes que resultassem em atitudes altruístas, dirigidos a mais do que aos parentes mais próximos, não deveriam ser propagados às gerações seguintes.

Exemplo muito simples:
Falando outra vez em bananas: imaginemos um homo sapiens ainda meio macaco que encontrava um cacho de bananas e não partilhava com os restantes amigos. Ele, estando mais alimentado e nutrido, teria mais hipóteses de trepar mais rapidamente à árvore e fugir a um ataque de um leão. Estando vivo e os outros não, podia ter mais macaquinhos fofinhos e egoístas que os demais. Sucintamente, o resultado seria uma população de macacões egoístas.

Agora imaginemos que o nosso meio macaco dava umas quantas bananas aos seus amigos. Já não estaria super-alimentado, nem teria aquela exata quantidade extra de energia que precisava para fugir. Estando morto é difícil procriar. Adeus macacos fofinhos e bondosos. Adeus descendência.

A não resposta para as tuas preces.

A não resposta para as tuas preces.

E agora é aquela parte em que esperas uma razão lógica que te explique o porquê de o macaco ser bondoso e solidário, e dar as suas bananas. Ou que explique aquele dia em que sacrificaste horas e horas de sono a ajudar um amigo.

Ou aquela doação anónima que fizeste, sem qualquer tipo de benefício para ti. E a razão é…
Ninguém sabe! A verdade é que não te posso dar uma resposta concreta para as tuas perguntas.. As pessoas são bondosas, altruístas e cuidadoras simplesmente porque o são. Porque sentem. E os sentimentos têm tendência a ultrapassar a nossa amiga lógica.

A Humanidade em grande.

A Humanidade em grande.

A verdade é que somos muito mais do que esse homo sapiens meio macaco. De facto, como já foi referido, somos capazes de atitudes altruístas e bondosas ao ponto de nos prejudicar-nos. E no entanto estamos, aqui todos nós, mesmo que as nossas atitudes altruístas sejam dificilmente explicadas por mecanismos evolutivos.

O que achas de contribuir para esta peculiaridade? A próxima vez que surgir uma oportunidade, ajuda o próximo. Conforta um amigo. Não fiques indiferente a alguém que pede dinheiro na rua para comer. Diz olá a um estranho. Descobre até como começar uma conversa com sucesso aqui.

Dá um grande pontapé na evolução, e mostra que estamos cá para algo melhor e mais grandioso do que meramente existir e produzir mais existências. Muito provavelmente até te poderá saber bem ajudar!

#stay_clipped

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Da tua família, com quem és mais parecido?

Da tua família, com quem és mais parecido?

Nunca te questionaste com quem és realmente mais parecido? Desde o momento em que nasces, és constantemente comparado(a) com alguém da tua família.

O que esperar deste artigo:

  • Neste artigo vamos oferecer-te a verdadeira resposta à pergunta: da tua familia, com quem és mais parecido? Pelo menos a nível genético.

Tempo estimado de leitura:

  • 5 minutos;

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A desmistificação

A desmistificação

Todos passamos por aquele momento constragedor em que, família reunida, alguém saca de uma foto com 72 anos e diz muito convicto: “Olha p’ra isto, és tão parecido com o teu tio-avô Joaquim!”. A maior parte das vezes (quase sempre) tu não concordas. E nós também não!

É claro que tens algumas parecenças com a tua mãe, com o teu pai, com os teus irmãos ou até com os teus avós. No entanto, do ponto de vista que estamos a adotar, isso é só o pico do iceberg.

Podemos reduzir a duas hipóteses. Essas duas hipóteses são: a tua mãe e o teu pai. E acredita, mesmo que te tenham dito a tua vida toda que tens “a cara do teu pai”, não és decididamente mais parecido com o teu pai do que com a tua mãe, pelo menos a nível genético.

O segredo está, como estás a começar a perceber, nas tuas células. Mais precisamente, nas tuas mitocôndrias, que estão, lá está, contidas no interior da célula. Todas as tuas células têm umas quantas destas máquinas,  ou por outras palavras, organelos.

As mitocôndrias são organelos que têm como objetivo fornecer energia suficiente para que as células possam trabalhar de forma correta. Só assim, eventualmente, tu também o consegues ao ponto de estares a ler este artigo na Clippyou.

Estejam atentos às máquinas...

Estejam atentos às máquinas...

A plot-twist é que, para poderem trabalhar, estas máquinas precisam de um manual de instruções, tal como as tuas células. E o manual destas já sabes qual é: o DNA ou ADN. Ou seja, a tua informação genética, que está contida no núcleo de todas as célula do teu corpo.

Ok! Reformulando, as tuas células têm, no seu núcleo, DNA. Elas têm ainda as mitocôndrias, que, se bem te lembras, também têm manual de instruções, o seu próprio DNA.

A revelação

No núcleo da célula não há nada a questionar, é basicamente 50% mãe, 50% pai. Tal como te ensinaram na escola, “és, metade mãe, metade pai”. Por isso, por exclusão de partes, sabemos desde já que a solução para a pergunta do título deste artigo está nas mitocôndrias. São as mitocôndrias, essas máquinas, que te dão energia para correr, saltar, gritar e tudo mais. E essas vieram todas da tua mãe, juntamente com toda a informação genética que contêm.

Explorando-te no teu estado primordial!

Isto justifica-se através de um fenómeno que ocorre aquando da conceção. Como dissemos anteriormente, ambos os teus pais contribuíram com 50% de infomação genética. Eles fizeram-no através de células muito especiais. São estas, as células sexuais.

Quando a célula sexual masculina (o espermatozoide) encontra e penetra na correspondente célula feminina (o ovócito), as mitocôndrias que ele possuía são destruídas. Assim, as únicas mitocôndrias que a tua primeira célula herdou são as que se encontravam no ovócito da tua mãe. Essa primeira célula deu origem aos triliões de células que reconheces como sendo tuas, e que vês ao espelho todas as manhãs. Assim, todas têm mitocôndrias correspondentes às da tua primeira célula.

Vamos fazer as contas à tua família!

Vamos fazer as contas à tua família!

Para além do DNA do núcleo que os teus pais te ofereceram, ambos em igual quantidade, só a tua mãe é que te deu o DNA que se encontra nas mitocôndrias. Este golo no tempo de compensação desempata a partida. E, fazendo as contas, na última jornada do campeonato, parece que ela fica a ganhar o merecido 1ºlugar. Agora já sabes: grita aos mares e aos ventos que não és metade mãe, metade pai. A sério, as máquinas mitocondriais permitem-to.

PS: A tua mãe vai adorar a promoção a superior na família. (sabe mais sobre o teu relacionamento com a tua mãe aqui)

#stay_clipped!

Aqui podes aprender mais sobre o que te transmitimos:

 Yin, S. Why Do We Inherit Mitochondrial DNA Only From Our Mothers? The New York Times.

Ankel-Simons, F. Cummins, J. Misconceptions about mitochondria and mammalian fertilization: Implications for theories on human evolution.

– Song, W. et al. Regulation of Mitochondrial Genome Inheritance by Autophagy and Ubiquitin-Proteasome System: Implications for Health, Fitness, and Fertility.

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